quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Jean-Léon Gérôme - A História como Espectáculo


O Museu d’Orsay, em Paris, abriu recentemente ao público, no passado dia 19 de Outubro, a maior exposição retrospectiva da obra do pintor e escultor Jean-Léon Gérôme, intitulada “L´Histoire en Spectacle”, e que vai poder ser visitada até 23 de Janeiro do próximo ano.

Jean-Léon Gérôme (1824-1904) é considerado um dos grandes criadores da imagem do século XIX.

Foi famoso no seu tempo e as suas obras eram reproduzidas graficamente pelas publicações da época, mas cairia no esquecimento na voragem vanguardista da primeira metade do século XX.

Para o seu esquecimento muito contribui a base académica da sua obra, muito criticada pelos movimentos realista e impressionista do seu tempo.

Contudo, olhando prospectivamente para a sua obra, nela se cruzam, não só o seu academismo e classicismo de base, na composição e nos temas, mas também os contributos da temática historicista do romantismo, da limpidez do realismo e do tratamento da luz dos impressionistas.

Ao não alinhar com nenhuma das correntes da moda, seguindo o seu próprio caminho independente, sem concessões e fazendo com eficiência aquilo que gostava, acabaria por pagar com o esquecimento essa “afronta”.

A reconstrução pictórica de cenas históricas, desde a antiguidade até à época em que viveu, foi um dos principais temas por si explorados.

Gérôme iniciou a sua carreira na década de 40 do século XIX, admirador do neo-classicismo de Ingres, tendo aderido em 1847 ao grupo, de curta duração, intitulado de “neo-gregos”, que reunia jovens artistas apaixonados por desenvolverem uma nova visão da Grécia Antiga. O grupo afirmou-se no Salão desse ano.

Do contacto com esse grupo ficou-lhe a admiração pela antiguidade clássica que esteve na origem das suas obras mais famosas, “A Morte de César”, de 1859, e “Os Gladiadores” de 1878.

Data dessa altura a sua ligação com o mais famoso “marchand” de arte do seu tempo, Adolphe Goupil, acabando por casar com a filha deste, Marie.

Da sua relação com Goupil, editor de revistas, resultou a sua ligação à revolução tipográfica desse tempo, que lhe permitiu reproduzir graficamente as suas obras e massificar assim a sua divulgação.

Mas a sua aprendizagem em reproduzir gravuras a partir de fotografias de originais ficou também a dever-se ao seu mestre, Delaroche, um dos mais reputados gráficos da sua época.

Através desses contactos e ensinamentos Gérôme conseguiu divulgar a sua obra, que se tornou mundialmente conhecida através das gravuras assim editadas.

A partir de 1855 realizou várias viagens pelo mediterrâneo oriental, tendo usado a fotografia como recurso, para, à boa maneira clássica, registar cenas e paisagens que depois reproduzia no seu atelier.

O exotismo oriental foi, aliás, outro dos temas por si explorado.

A partir de 1890 abandonou a pintura e dedicou-se exclusivamente à escultura, onde explorou uma das temáticas mais características da sua obra, o erotismo.

A exposição agora apresentada do Museu d’ Orsay é a primeira monográfica dedicada àquele autor, reunindo quase todos os seus desenhos, pinturas e esculturas.

(auto-retrato)

(A MORTE DE CÉSAR - 1859)

(Estudo para "A Morte de César" . detalhe)

(Interior Grego ou Gineceu - 1850)

("Pollice Verso" - 1872)

(A consumação da crucificação - 1867)

(Bonaparte perante a Esfinge - entre 1863 e 1886?)

(Markos Botsaria, herói romantico da Independencia Grega - 1874).

(A execução do General Ney - 1868).

(Diógenes)

(recepção ao príncipe conde em Versailhes por Luis XIV)

(No Final da Sessão)

(pintor de esculturas na Antiguidade)

(Duelo à saida do baile de Máscaras - 1857)

OUTRAS OBRAS DE GÉRÔME:

Harem

Mercado de cavalos do Cairo

Vestígios do Antigo Egipto.



Cristão na arena romana

Saindo da mesquita

Leão no penhasco

Napoleão no Egipto

Noite no Deserto

Nu feminino

Rezando na Mesquita

Mercado de Peles no Cairo

Tocador de pífaro nas ruas de Londres

Entrada do Touro na Praça

Retrato de uma rapariga.

Retrato de cavalo

Venda de escravos

Muro das lamentações em Jerusalem

Primavera

Estudo para um cão

Final de um dia de Verão.

Coroação de Augusto

O Poeta Negro

O Picador

Duas Majestades

A Virgem com Jesus e S. João

A mesquita do Cairo.

Vista do Cairo.

Sem Título

Inverno

Vista de Paestum

Jovem árabe

OBRAS DE ESCULTURA:

O Artista e o modelo . Neste quadro é possível observar um Gérôme envelhecido no seu atelier de escultura.

Nu desenvencilhando-se

TANAGRA

Sarah Bernhardt

O Gladiador


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Projecto Crono nas Ruas de Lisboa

(o "lagarto" de Ericailcane)

Em Maio passado o CCB inaugurou uma exposição dos artistas plásticos brasileiros Otávio e Gustavo Pandeolfo (ver AQUI o seu site oficial), mais conhecidos por "Gémeos".(Ver AQUI reportagem desse acontecimento).
São talvez os mais conhecidos dos autores de uma intervenção de "street art" em quatro prédios devolutos da Fontes Pereira de Melo.
A intervenção teve lugar em Julho e nela colaboraram, para além dos famosos "gémeos", outros artistas como a britânica Lucy McLauchlan, os italianos Ericailcane e Blu e o catalão SAM3.
Este conjunto de trabalhos de arte efémera, aos quais se têm juntado outras intervenções nas ruas de Lisboa, deve-se a um projecto intitulado Crono Lisboa.
Fiquem com o registo fotográfico dessas obras:

 
(obra de "Os Gémeos")

(Obra de "Os Gémeos", pormenor).

(pormenor da intervenção BLU)

(pormenor da intervençãp de BLU)

(intervenção do artista italiano BLU)

(pormenor da intervenção de BLU)

(intervenção do catalão Sam3)

(Obra de Sam3)

(intervenção do italiano Ericailcane)

(intervenção da britânica Lucy McLauchlan)

(pormenor da intervenção de Ericailcane)

(o gato preto, símbolo das intervenções de Sam3)

(pormenor da obra de BLU)

(pormenor da obra dos "Gémeos")

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Victor Willing e Paula Rego na Casa das Histórias

Primeiro a casa...

Já a tínhamos visitado na ano passado, agora tivemos uma nova oportunidade de apreciar a obra arquitectónica de Eduardo Souto Moura, a Casa das Histórias, uma das mais interessantes da arquitectura contemporânea.









...Depois as exposições

Aí pudemos visitar duas exposições, uma, retrospectiva de Victor Willing (1928-1988) marido de Paula Rêgo.

Esta reúne 80 pinturas e desenhos do artista inglês, onde se cruzam o abstraccionismo, o cubismo e o surrealismo, tudo “regado” com uma boa dose de ironia.




A completar esta exposição é possível apreciar a obra de Paula Rêgo, “Paula Rego Anos 70-Contos Populares e Outras Histórias”, uma exposição que mostra o resultado de uma investigação da pintora portuguesa sobre os Contos Tradicionais.

Estas duas exposições podem ser vistas até Janeiro próximo.

Público - A poesia não contribui para o PIB, logo, não deve ser subsidiada?

Público - A poesia não contribui para o PIB, logo, não deve ser subsidiada?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Decoberta uma nova tela de Bruehgel, "o Velho"

Foi descoberta uma obra desconhecida de Pieter Brughel, "o velho" (1525/30-1569), intitulada "O Vinho na Festa de S. Martinho".
A descoberta é tanto mais importante, quanto são poucas as obras reconhecidas desse pintor flamengo, cerca de quarenta.
Este novo quadro é o maior até hoje conhecido da autoria do mestre flamego (478x270).
Foi descoberta numa colecção particular de espanhola e o Museu do Prado está a negociar a sua aquisição.
Mais informações sobre esta descoberta podem ser consultadas AQUI.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Debate sobre o "culturalês" na Arte Contemporânea

Começo por esclarecer que sou apenas um cidadão comum que, por acaso, obrigação e prazer, gosta de arte.

Devo dizer que também não sou daqueles que acha que a arte contemporânea terminou com Duchamp.

Gosto da novidade e da criatividade, embora me aperceba do beco sem saída em que se encontram muitos dos artistas contemporâneos quando se deparam com um mundo onde tudo ou quase tudo, em termos criativos e de experimentação, já foi testado no século XX.

Contudo, penso que ainda resta alguma margem criativa na arte contemporânea, principalmente explorando, num dos extremos, as novas tecnologias, e no outro a arte mais primitiva, como a dos grafites.

Contudo não deixo de me confrontar, como qualquer cidadão comum, com algumas perplexidades dos rumos que a arte actual vai tomando, caindo em simples modismos, em ditaduras do gosto impostas por críticos, curadores e galerias de arte, mais interessadas no lucro das suas decisões do que na arte em si.

Fico igualmente perplexo com o ridículo em que muitos artistas caem à custa de quererem ser originais numa actividade onde tal é cada vez mais difícil, raiando por vezes o anedótico, como aquele célebre caso que aconteceu numa galeria da Figueira da Foz onde uma empresa de limpeza foi processada porque as suas “colaboradoras” resolveram, depois de encerrada essa galeria, e quando procediam à limpeza, deitar para o lixo os cacos de uma sanita que aí encontraram, a qual, afinal, era uma “peça de arte” que fazia parte da exposição; ou aquele outro caso que envolveu uma longa polémica, aqui há uns anos, e que não sei como terminou, porque a prestigiada Tate de Londres resolveu comprar as fezes de um artista italiano, que as tinha exposto, num acto provocador, e que eram classificadas por críticos e curadores imprescindíveis a um espaço onde a arte contemporânea era a razão do seu prestigio internacional.

Estas situações estão ao nível da caricatura e do anedótico, e serão minoritárias. Pela minha parte, descontando esses excessos, continuo fã da arte contemporânea e tenho assistido a muitas exposições criativas e surpreendentes.

Toda esta conversa vem a propósito de uma polémica que por aí estalou, por causa de um artigo de Pacheco Pereira sobre aquilo que ele designa como “Culturalês” que tem vindo a contaminar a cultura e a arte do nosso tempo.

É um tema interessante a discutir e a seguir, por isso deixamos aqui as principais peças desse processo (só não conseguimos uma cópia digital do texto mais recente sobre o tema, da autoria de António Guerreiro, “O Processo da Arte Contemporânea”, publicado na edição do Expresso de 4 de Setembro último, no ATUAL (pág.36):





Deixamos à vossa reflexão este tema.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

D. Afonso V e a Invenção da Glória

Regressamos a este espaço com uma boa notícia. O Museu de Arte Antiga resolveu prolongar a abertura da exposição das célebres “Tapeçarias de Pastrana” até ao próximo dia 3 de Outubro.

As Tapeçarias de Pastrana foram encomendadas por D. Afonso V, nos finais do século XV, para registar os seus feitos militares no norte de África.

São quatro tapeçarias com 4x10 metros que relatam, três o desembarque, o cerco e o assalto a Arzila e outra a conquista de Tânger.

Numa época em que não havia fotojornalismo, estas tapeçarias relatam, de forma mítica, um acontecimento que foi históricamente importante, relatado como se fosse uma gigantesca Banda Desenhada.

As 4 tapeçarias foram produzidas na oficina flamenga de Tournai e terão sido concluídas já no reinado de D. João II.

Misteriosamente desapareceram de Portugal e só foram localizadas já no século XX na coligida de Pastrana, em Espanha, tendo sido alvo de um minucioso e dispendioso trabalho de restauro.

Juntamente com essas tapeçarias, está exposto algum do espólio do Museu Nacional de Arte Antiga relativo à época, tais como os sempre surpreendentes Painéis de S. Vicente e a cadeira régia do Convento do Varatojo, mosteiro fundado pelo monarca junto a Torres Vedras.

Depois de 3 de Outubro, quem as quiser ver terá de se deslocar a Espanha