quarta-feira, 9 de junho de 2010

Este ano recorda-se o 4ºCentenário da morte de Caravaggio

(retrato de Caravaggio por Ottavio Lioni, séc. XVII)

Encerra no próximo Domingo a grande exposição retrospectiva que Roma dedicou a um dos seus grandes pintores, Michelangelo Merisi, mais conhecido por Caravaggio, nome da sua terra natal, onde nasceu em 29 de Setembro de 1571.

Um pouco por toda a Itália realizam-se este ano vários eventos comemorativos do 4º centenário da sua ainda hoje mal esclarecida morte, em 18 de Julho de 1610.

Tecnicamente, Caravaggio ficou conhecido pela utilização do efeito “claro-escuro”, uma técnica que combinava a luz e as zonas escuras para dar um efeito tridimensional às pintura, reforçando ao mesmo tempo um certo dramatismo, rompendo assim com a tradição clássica de figuras e composição simétrica com planos de fundo detalhados.

É considerado por uns com um pintor de transição entre o maneirismo e o barroco na pintura, por outros como o próprio “pai” da pintura barroca.

Embora grande parte da sua temática verse temas da tradição cristã, tratou-a de forma inovadora, usando pessoas da rua, muitas vezes marginais, como modelos para os seus quadros, ou rompendo com os cânones do simbolismo cristão, alterando cores ou posturas na representação da iconografia cristã tradicional.

Foi em Milão que Caravaggio iniciou a sua aprendizagem, especializando-se nas naturezas-mortas ..

Muda-se para Roma em 1592 onde o seu talento chama a atenção do cardeal Francesco Del Monte, que se torna o seu mecenas e protector.

A sua curta vida seria marcada pela turbulência e pelo escândalo, pelo convívio com marginais, muitos dos quais lhes serviram de modelo, acabando envolvido num assassinato em 1606, devido ao qual é obrigado a fugir de Roma para Nápoles, depois para Malta e Sicília, esperando poder regressar a Roma onde os seus amigos procuram obter uma decisão judicial que lhe seja favorável.

Continua entretanto a pintar, produzindo muitas obras-primas, entre as quais a “decapitação de São João Batista”, executada em Malta, auto-retratando-se na cabeça do santo decapitado. Posteriormente, num outro quadro que retrata uma decapitação, a de Golias, volta a retratar-se como o decapitado.

Acabaria por morrer antes de conseguir regressar a Roma, talvez de pneumonia, em Porto Ercole.

A sua obra influenciou os grandes mestres do barroco, como Rubens, Bernini ou Rembrandt.

AQUI  podem consultar um excelente artigo sobre a exposição que encerra ente fim-de-semana.

Em baixo reproduzimos algumas das suas obras principais:

Cesto de Fruta - 1596

Rapaz com Cesto de Fruta - 1593/1594.

Baco


Cabeça de Medusa

Os Musicos - 1595/96

A vocação de S. Mateus - 1600

Ceia em Emmaus - 1601

A conversão de S. Paulo - 1601

Martírio de S. Pedro - 1601

"Amor vincit omnia" - 1601/1602



A Captura de Cristo - 1602

A Deposição de Cristo - 1603

Ecce Homo - 1605

S. Jerónimo - 1605

Sacrifício de Isac

Anunciação.

A morte da virgem - 1606

As sete obras da misericórdia - 1607

Flagelação - 1607

Adoração dos Pastores - 1609

Judite cortando a cabeça a Olofene.

Salomé com a cabeça de S. João Baptista

David segurando a cabeça de Golias - 1609/1610.

David e Golias

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A escultora Louise Bourgeois morre aos 98 anos


Faleceu esta segunda-feira, em Manhattan, onde vivia, a escultora Louise Bourgeois, com 98 anos.

Nascida em França em 25 de Dezembro de 1911, contactou desde cedo com o ambiente vanguardista de Paris, tendo inicialmente admirado as novidades do expressioniso, do cubismo, do construtivismo, do surrealismo e do abstraccionismo.

Estudou em várias academias de arte francesas, seguindo os ensinamentos de artistas como André Lhote e, nomeadamente, do mestre do cubismo Frenand Léger.

Casada com o historiador de arte norte-americano Robert Goldwater em 1938, partiu com ele para Nova York no ano seguinte para fugir à crescente degradação da situação europeia.

Nacionalizada americana em 1951, mãe de três filhos, Bourgeois ensinou em diversas instituições dos Estados Unidos.

Permaneceu naquela cidade cerca de sete décadas, onde explorou vários materiais e vários géneros artísticos, como o desenho, a pintura e a escultura, mas foi nesta última que se tornou uma artista famosa e original.

Teve a sorte de ter vivido nos dois principais centros artísticos do mundo, cada um na época certa, em Paris, até à Segunda Guerra, em Nova Iorque que, no pós guerra, substituiu a cidade europeia como principal centro de inovação artística.

Nos Estados Unidos Bourgeois conheceu a novidade do expressionismo abstracto e do pós-minimalismo.

Nesse cruzamento de propostas e correntes conseguiu construir o seu próprio percurso, embora só tenha visto a sua obra reconhecida nas décadas de 80 e 90 do século passado, período em que o MoMa de Nova Iorque apresentou uma exposição retrospectiva da sua obra.





Nos anos noventa, a escultora é finalmente reconhecida na sua terra natal com uma grande retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Paris (1995), à qual se seguem várias exposições e instalações na Europa: Londres (1996), Bordeaux (1998), Bienal de Veneza (1999), onde representa os Estados Unidos, e Bruxelas (2005).

Em 2008, o Centro Pompidou, em Paris, recebe, após Londres e antes dos Estados Unidos, uma grande retrospectiva da artista, com mais de 200 obras, entre esculturas, instalações, pinturas e desenhos.

Quando, nesse mesmo ano, o Guggenheim de Nova Iorque organizou uma retrospectiva que artista supervisionou, esta disse que a sua extensa carreira tinha sido influenciada significativamente pelos traumas de sua infância, provocados pela perda de uma mãe jovem e a traição de seu pai, que manteve uma relação com sua professora de inglês.

Em 1999 executou a sua obra mais famosa, “Maman”, a escultura de uma aranha gigante, com mais de nove metros de altura, e que foi adquirida pela Tate Modern de Londres. Em 2007 esta famosa galeria de arte contemporânea adquiriu uma outra versão em bronze que expôs do lado de fora.

Para Bourgeois essa temática que ela explorou em várias ocasiões, era uma “ode” de homenagem a sua mãe.
















A propósito das suas fantasias infantis em relação à família, destaca-se a obra de 1974 “A destruição do Pai”, que representa a figura paterna às postas sobre uma mesa, a ser desmembrada e comida por outros membros da família.



Utilizou vários matérias nas suas esculturas, como a madeira, a pedra, o aço, o bronze, o mármore, o plástico, o látex, o vidro, usando mesmo objectos recolhidos nas ruas.

Foi desta reciclagem de materiais da rua que nasceram, nos anos 90, as suas célebres “cells”, obras em forma de pequenos quartos cercados, nos quais colocava tanto objectos por si elaborados, como os que recolhia nas ruas



Parte da sua obra reflecte conteúdos sexuais explícitos, onde aparecem muitas vezes escultura em forma de falo.











A Fundação italiana Emilio e Annabianca Vedova preparava actualmente uma exposição retrospectiva sobre a artista em Veneza, com a qual a artista colaborou até dois dias antes da sua morte. A abertura da exposição, com obras inéditas da artista, mantêm-se para a próxima 6ª feira.

Uma excelente biografia da autora na net e em inglês, pode ser consultada AQUI.























terça-feira, 18 de maio de 2010

Arte e Fotografia - Uma exposição em Barcelona

(Emili Godes, 1930)

É hoje inaugurada em Barcelona, no Museu Nacional de Arte da Catalunha (MNAC) , a exposição “Praga, Paris, Barcelona, Modernidade Fotográfica de 1918 a 1948”.

Nesta exposição procura destacar-se o desenvolvimento da utilização da fotografia como conteúdo artístico, numa mostra onde se evidencia a riqueza experimental e vanguardista de fotógrafos de três cidades que foram também três núcleos fundamentais da cultura europeia do século XX, no período entre guerras.

A exposição apresenta cerca de duas centenas de fotografias que incorporam as inovações técnicas, criativas e formais usadas por um vasto leque de fotógrafos que procuraram integrara na fotografia as premissas do modernismo da arte do seu tempo.

Os fotógrafos aqui homenageados foram fortemente influenciados pela inovadora escola alemã de artes, a Bauhaus, responsável pelo desenvolvimento do movimento “Nova Fotografia” que surgiu na Alemanha por volta de 1920.

O modelo proposto pela Bauhaus, defendendo uma arte integrada, abarcando todas as disciplinas artísticas levou a experimentação fotográfica a níveis de divulgação popular através do seu uso na publicidade.

A “Nova Fotografia” experimentava novas formas criativas, usando todas as novidades técnicas, criativas e formais colocadas ao seu alcance, incorporando à fotografia o abstraccionismo, a fotomontagem ou as técnicas tipográficas.

Desde então, a fotografia participou definitivamente nas propostas vanguardistas da “nova subjectividade”, do “construtivismo”, do “abstraccionismo”, e do “surrealismo”.

A aparição desta “nova fotografia” teve grande impacto por toda a Europa, expandindo-se desde a Alemanha para a jovem Checoslováquia, destacando-se Praga como um dos principais focos de modernidade artística, mas também para Paris, o centro do vanguardismo artístico na primeira metade do século XX.

Na Catalunha, sede desta exposição, o uso vanguardista da fotografias foi introduzido pela difusão de revistas culturais, como “D’Aci i d’ Allá”, que se publicou entre 1918 e 1936, e pela divulgação de revistas culturais provenientes de toda a Europa.

Comissariada por Davis Balsells, conservador chefe da colecção de fotografia do MNAC, com a colaboração de Joan Naranjo, historiador de fotografia e membro da comissão de assessoria da secção de fotografia desse museu de Barcelona, a exposição pode ser visitada até 12 de Setembro.

(Pierre Jahan, 1943)

(Hans Bellmer, 1937)

(Jaroslav Rossier, 1930)

(François Kollar, 1930)


(Joaquim Gomis, 1949)

(Ramon Battles)

 
(Fonte: El Mundo on-line de 17 de Maios de 2010)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A visita do Papa e a (falta) de estética católica - num texto do Público

"A (falta de estética)católica e os avisos do Papa.

por António Marujo, Público 12 de Maio de 2010

“Há uma estética na Igreja Católica feia e ridícula, presa que está a expressões de um passado recente – séculos XIX e XX, em que o catolicismo se zangou com a arte e vice-versa – ou à reprodução deslocada de ícones de séculos.

“Quando, esta manhã, o Papa falar sobre a beleza perante mais de mil artistas, criadores e pensadores portugueses, não poderemos deixar de pensar que, em Portugal, há ainda um caminho para fazer. Mesmo se, nesta matéria, muito têm conseguido várias estruturas católicas, num percurso de reencontro com a beleza. Iniciativas em dioceses como Lisboa, Porto, Beja ou Viseu ou do Secretariado da Pastoral da Cultura, na área do diálogo cultural, do património histórico ou da criação artística contemporânea têm marcado uma diferença radical com o deserto que subsistia até há poucos anos.

"Por vezes, no entanto, o que se faz é contraditório. Há um grupo católico internacional, os Arautos do Evangelho, cujos membros aprendem, entre outras coisas, música e canto, tocando depois em missas e cerimónias litúrgicas. São, em grande parte, adolescentes e jovens. Normalmente, fazem-no com um nível excelente de execução musical e instrumental. É pena que ninguém tenha dito aos seus responsáveis que a farda que usam, inspirada nas vestes das antigas ordens militares – é de uma grande falta de gosto, nas cores, nas formas ou na expressão. A estética nunca é neutra e o facto de incluir botas de cano alto e uma espada desenhada a partir da forma da cruz de Cristo, remete para expressões da Igreja que já deveriam estar ultrapassadas.

"Ontem, no Terreiro do Paço, lá estavam alguns arautos fardados, a participar no coro e na missa. Mas não eram só eles. Outros grupos com expressões deste tipo faziam-se notar. Por contraste, o altar da missa celebrada em Lisboa era de uma feliz concepção. Tal como a animação durante a tarde, que recuperou várias canções das jornadas mundiais de juventude –belas obras musicais, que aliam o gosto poético à música contemporânea.

"Já a campanha com o lema “Foi o Pai que me ensinou” peca por ineficaz: para quem está fora da Igreja (e para muitos dos que estão dentro) o significado do “Pai” não era perceptível.

"No encontro na Capela Sistina, em Novembro, Bento XVI citou Dostoievski perante os artistas: “A humanidade pode viver sem a ciência, pode viver sem pão, mas sem a beleza não poderia viver nunca, porque não teríamos mais nada para fazer no mundo.” Os católicos têm que perceber isto profundamente (…)"
(ver todo o artigo AQUI).